6 de set. de 2008

PEIXINHOS DOURADOS-Sonhos


(CECILIA LOMÔNACO)
No sonho de Kurosawa que assisti na aula de Psicologia, a criança, símbolo de uma humanidade que ainda não se conhece propriamente, sai de casa. A criança sai do lugar comum que cotidianamente habitamos. Sai do universo consciente da razão, do mundo dos símbolos, das tradições, dos conceitos e das representações. Sai do mundo familiar em busca de algo que percebe, claramente, estar faltando. É uma personagem feminina que o conduz até o altar vivo, interativo, dinâmico. E é ali, diante de si mesmo, que encontra o que pressentia lhe faltar ...
No sonho de Cecília, daquele mesmo dia, havia um quarto com quatro camas, duas delas em beliche. Escolho para dormir aquela mais próxima à janela, mas dali vejo um aluno jogando peixes na piscina. Que inconveniente, pensei. Esses lambaris cheiram mal, vão sujar a água. Não é este o lugar onde deveriam estar. Incomodada com o mal cheiro, decidi mudar de cama e escolho me instalar no beliche, na cama do alto. Vejo então, com grande surpresa, peixinhos dourados, belíssimos, inacreditavelmente brilhantes entrando pela janela. Pareciam voar!
Acordo e tento compreender: - que mensagem é esta que estes símbolos vêm me trazer? Passo o dia tentando matar a charada. - Que sonho esquisito, estranho demais! Foi somente no dia seguinte que tudo pareceu se encaixar. Sentia-me já há algum tempo angustiada com o fato de estar com muitas aulas neste semestre. Achava injusto trabalhar mais do que meus colegas. Ninguém parecia se importar. Ao mesmo tempo não conseguia decidir qual disciplina deveria deixar de ministrar, caso decidisse reivindicar ajuda dos colegas mais "folgados".
Foram os peixinhos dourados que me fizeram compreender que o mal cheiro da inveja que sentia estava roubando de mim a alegria e o prazer de estar fazendo o trabalho que tanto gosto de realizar. Assim, como no sonho de Kurosawa, coloco-me diante de meu próprio altar e encontro o que procuro. Compreendo que a justiça não precisa da medida da igualdade, da uniformidade. Compreendo que justo é aquilo que escolho realizar com a beleza e o brilho dos peixinhos dourados que vieram me visitar.

30 de ago. de 2008

ARQUÉTIPO SOMBRA



A sombra apresenta-se como o mais poderoso de todos os arquétipos, já que é a fonte de tudo o que existe de melhor e de pior no ser humano. Como todo e qualquer elemento psíquico, a sombra possui aspectos positivos e negativos para o desenvolvimento da personalidade.

Se a persona é desenvolvida com o objetivo de facilitar a convivência do homem na sociedade onde vive, onde, então, se apresentarão aqueles conteúdos não compatíveis com esta adaptação? A sombra é o arquétipo receptáculo dos aspectos que foram suprimidos no desenvolvimento da persona, e mais que isto, ela contém conteúdos que nem chegaram a passar pelo crivo do consciente. Estes conteúdos podem, potencialmente, emergir a qualquer momento na consciência, se considerados do ponto de vista energético.

Quanto mais unilateral se torna o consciente; tanto mais a persona é banhada de purpurina e mais acentuados são os elementos que compõem a sombra. Importante salientar, no entanto, que a sombra não é o lado oposto da consciência, mas representa o que falta a cada personalidade consciente.

Um dos maiores trabalhos no processo de individuação, que consiste no desenvolvimento da personalidade total, é sem dúvida a integração da sombra na consciência. Uma vez reconhecida, a sombra, como parte de si mesmo, o ser humano irá fazê-lo constantemente, pois os conteúdos sombrios não se esgotam, porque sempre que houver processo de escolha, consciente, haverá também, o lado que ficou negligenciado ou não escolhido, aquele que poderia ter sido vivido e não foi. Neste sentido, a sombra estará sempre ao lado do indivíduo e focaliza o resultado de suas escolhas.

Normalmente, reconhecer a sombra implica em “arrumar encrenca” e colocar em questionamento toda a consciência de si: os hábitos, crenças, valores, afetividade, etc. É um mergulho no desconhecido, é ficar sem chão, é perder o apoio.

Sendo o confronto com a sombra um dos primeiros aspectos do processo de individuação, é necessário um ego bem estruturado para reconhecer que tudo aquilo que projetamos nos outros, principalmente as coisas que menos gostamos, são nossas e de mais ninguém.

A sombra não possui, porém, somente aspectos negativos e rejeitados. Possui também aspectos que impulsionam o ser humano para a criatividade e busca de soluções, quando os recursos conscientes se esgotaram. Por sorte, a sombra é insistente e não se sente acuada com a repressão exercida pela consciência. Sempre arranja um jeito de se manifestar, a inspiração é uma destas maneiras. Uma vida sem a presença da sombra torna-se sem brilho e sem criatividade.

Quando, para a nossa adaptação social, desenvolvemos a persona, somos obrigados a descartar vários aspectos que não condizem com a atitude da consciência naquele momento. Estes aspectos poderão ser úteis em outra época de nossas vidas, poderão voltar, uma vez que não serão mais prejudiciais à nossa adaptação e poderão mudar o rumo de nossa história.

A sombra, quando trabalha em harmonia com o ego, deixa a vida mais colorida e rica.

PERSONA



É a máscara usada pelo indivíduo em resposta às convenções e tradições sociais e às suas próprias necessidades arquetípicas internas. É o papel que a sociedade lhe atribui, que espera que você represente na vida. O propósito da máscara é produzir uma impressão definitiva nos outros e, muitas vezes (embora não obrigatoriamente) dissimula a verdadeira natureza do indivíduo, em oposição à personalidade privada, que existe por trás da fachada social. Se o ego se identificar com a persona, como freqüentemente o faz, o indivíduo terá mais consciência do papel que está representando do que de seus sentimentos genuínos. Será sugado pelo personagem, tornando-se um alienado de si mesmo e toda a sua personalidade toma um aspecto superficial e bidimensional

ANIMA E ANIMUS


Jung atribui a arquétipos o lado feminino da personalidade do homem e o lado masculino da personalidade da mulher. O arquétipo feminino no homem é chamado anima, e o masculino na mulher, animus. Eles são o produto de experiências raciais do homem com a mulher e vice-versa. Constituem a "alma" de cada homem e mulher. No que se refere ao caráter dessa "alma" ela costuma ter todas aquelas qualidades humanas comuns que faltam à atitude consciente. O tirano atormentado por maus sonhos, pressentimentos sombrios e receios interiores, é uma figura típica. Exteriormente cruel, é porém sujeito a qualquer humor, como se fosse um ser menos autônomo e mais maleável. Sua alma contém, pois, aquelas qualidades humanas de fraqueza e determinabilidade que faltam completamente à sua atitude exterior, à sua persona. Se a persona for intelectual, a alma será sentimental com toda certeza. O caráter complementar da alma atinge também o caráter sexual, conforme pude constatar muitas vezes. Mulher muito feminina tem alma acentuadamente masculina; homem muito masculino tem alma feminina. A anima e o animus têm um papel importante nas relações amorosas, onde as pessoas, inconscientes desses arquétipos, são levadas a projetá-los no sexo oposto. O desenvolvimento consciente da anima e do animus acarreta numa ampliação da personalidade e num relacionamento mais rico com o outro.

27 de ago. de 2008

HUMANA



Outro dia li estes versos de Marly:

Bom é ser árvore, vento:
sua grandeza inconsciente.
E não pensar, não temer.
Ser, apenas. Altamente.

Permanecer uno e sempre
só e alheio à própria sorte.
Com o mesmo rosto tranqüilo
diante da vida ou da morte.

Fiquei pensativa: será???
Acho que não...
Bom mesmo é ser humano.
Sentir lá no fundo da alma as dores e as alegrias.
Ter consciência de si e do mundo.
Ter consciência da vida e da morte.
Experimentar a angustia do humano e suportá-la.
Gemer de dor ante a consciência da nossa pequenez e impotência, mas também chegar ao gozo das pequenas delícias da vida.
Acho bom ser humana.
Não quero ser como árvore, inconsciente para não pensar e não sofrer.
Quero viver e experimentar a perplexidade ante as aporias da minha existência.
O ser humano é assim e assim eu quero ser.
Humana, muito humana....

26 de ago. de 2008

SAKURA

A Sakura é o modo como a nação japonesa se refere às cerejeiras floridas.
São árvores de raríssima beleza.
Contam os botânicos que é a única arvore do mundo cujas flores vêm antes das folhas. Sua florada dura no máximo dez ou doze dias, mas é o tempo suficiente para encher o lugar com o espetáculo de beleza e majestade.



Na primavera japonesa as sakuras convidam as pessoas ao Hanami.
hana= flor
miru= olhar
Olhem as flores
O espetaculo é passageiro. Parem e olhem agora!!!
Não deixem para depois!!!
Fico imaginando as sakuras de nossas vidas que florecem, passam e nós não vemos.
São momentos....instantes.
Tudo muito fugaz.
Não vemos porque não estamos atentos à sua chegada. Não aguardamos com espectativa. Nosso espírito não está desperto, vigiando para o instante em que as cerejeiras florirão.

Somos tolos e achamos que todas as coisas seguem as regras de sempre: primeiro isso e depois aquilo. Agimos logicamente, como se tudo no mundo obedecesse à logica racional.

Com a sakura não é assim: as flores vêm antes das folhas.

Vejo que é preciso raciocinar lógica e analogicamente.

A sakura se dá em toda primavera japonesa, mas em nossa vida há coisas em que a florada se dá apenas uma vez.

A sakura nos avisa: vigiem...estejam atentos.... não percam o espetáculo da vida!

Infelizmente muitos dormem. Outros estão ocupados com as tarefas diárias e não têm tempo para o hanami.

Que pena!!!!!

25 de ago. de 2008

ADOECIMENTO


As enfermidades psíquicas são o resultado de uma perturbação da capacidade natural de amar... A condição essencial para curar perturbações psíquicas é o restabelecimento da capacidade natural de amar.
(Wilhelm Reich)